24/06/2011 13h28

“Nesse mercado a informação é que faz a sua sorte”. Esta frase abre a página principal de um estranho site denominado BNL (Boletim de Notícias Lotéricas), que traz informações sobre todo tipo de jogo ilegal, tais como bingo, videobingo, caça níquel, cassino, jogo do bicho e outros. Mais estranho ainda é que este mesmo site tenha reproduzido, no dia 16 de junho de 2011, uma notícia que fora postada no último dia 15, no site da AMB, informando a visita dos representantes da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin) ao presidente Nelson Calandra. A informação, com o crédito da Assessoria de Comunicação da AMB, confirma que o desembargador Calandra “defende a regulamentação dos bingos com uma visão no futuro”. Leia aqui.

Em se tratando da AMB, a informação defendendo a legalização das casas de bingo não trouxe sorte, mas sim uma grande dor de cabeça ao presidente Calandra, fato este que, sem dúvida, abre uma grande chaga em sua gestão, a meu ver difícil de ser curada.

A AMB tenta amenizar o desconforto que a notícia causou no seio da magistratura, mas diz o ditado: “quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”, ou seja, quanto mais o Calandra tenta se explicar, mais ele se complica. O que veio em seguida à publicação da notícia no site da AMB foi uma sucessão de erros e desrespeito à magistratura e à própria sociedade brasileira. Explico logo abaixo.  

A notícia sobre a visita dos donos das casas de bingo foi postada no site da AMB no dia 15 de junho. No dia 21 o site Conjur reproduziu uma parte dela, destacando exatamente o ponto da declaração do presidente Calandra em que ele defende a legalização do bingo eletrônico “com uma nova roupagem”, sem a denominação jogo, mas como atividade lúdica e de lazer. Leia a nota.

A reprodução da notícia pelo Conjur causou impacto na magistratura. Vários magistrados criticaram, por meio das redes sociais e em notas divulgadas na imprensa, a declaração do presidente Calandra. Posicionei-me nas minhas páginas do Facebook e Twitter, recebendo manifestações de apoio de vários colegas. A indignação da juíza Andrea Pachá com a atual gestão da AMB foi registrada em uma nota do jornalista Ancelmo Góis em o Globo, no dia 24 de junho, com o título "Juiz e Jogatina". (veja aqui).  

A declaração de Calandra sobre os bingos não reflete o pensamento dos associados da AMB e ele, na condição de presidente, não poderia, de forma alguma, ter se manifestado de tal maneira, mesmo que defenda, no campo pessoal, a legalização dos bingos.

O passo seguinte dado pela AMB foi ainda mais desastroso. A matéria que estava publicada no site da própria entidade desde o dia 15 de junho, com as declarações de apoio do presidente Calandra, inclusive com foto da reunião com os donos de casas de bingo, simplesmente foi apagada, sumiu. Não consta mais no site da AMB. Clique aqui e veja para onde o Google direciona a informação. A notícia foi reproduzida em vários sites jurídicos, onde não foi apagada, ainda. O jornalista Frederico Vasconcelos registrou em seu blog (Blog do Fred), na Folha de São Paulo on line, o sumiço da matéria com as declarações de Calandra do site da AMB.Veja aqui.

Além de determinar à sua assessoria que deletasse a notícia informando do apoio da AMB à legalização das casas de bingo, o presidente Nelson Calandra cometeu, na minha avaliação, um erro ainda maior. Divulgou uma nota oficial negando ter dado as declarações divulgadas pelo Conjur e atribuindo ao próprio Consultor Jurídico o erro da informação. O Conjur publicou a nota, mas ressaltou que a informação foi baseada em matéria publicada no site da própria AMB. Leia    

O que mais de me intriga em toda esta história mal contada é saber quais os motivos que levaram o presidente da AMB a parar a sua agenda de trabalho e receber em seu gabinete donos de casas de bingo que foram pedir apoio da magistratura para o projeto de legalização da atividade. Com tantos projetos de interesse da magistratura pendentes de aprovação no Congresso Nacional, a AMB para tudo para discutir projeto de legalização de jogo de azar. Realmente não dá para entender.

Em que pese a amizade do presidente Nelson Calandra com o ex-deputado federal Régis de Oliveira (PSC-SP), desembargador aposentado pelo TJ-SP e ex-presidente da AMB, que foi o relator e apoiador do projeto de legalização dos bingos quando no exercício do mandato, eu me pergunto: será que o presidente atual da AMB tem conhecimento ou já ouviu falar dos relatórios da Polícia Federal sobre a rede criminosa que opera por trás das casas de bingo em todo o país?

Se nunca ouviu falar, então é bom que o nosso presidente leia o artigo “A verdade sobre os bingos”, do ex-secretário de Segurança Pública do Paraná, promotor de Justiça Luiz Fernando Delazari, ou a matéria “Bicho solto”, publicada na revista Isto É em outubro de 2010.

Quem sabe após a leitura, o desembargador Nelson Calandra entenda que uma liderança associativa da magistratura brasileira tem pautas muito mais sérias e importantes para se preocupar do que transformar jogo de azar em “atividade lúdica e de lazer”.

Tags: bingo, amb   Compartilhe: