22/05/2011 12h33
Uma das características dos governos autoritários é tentar sufocar as críticas daqueles que se contrapõem às suas ações, por meio de propagandas publicitárias. Quando não há argumentos contrários convincentes, apelam para o velho e conhecido jargão: “se não está satisfeito, saia”.
A propaganda ufanista foi muito bem usada durante o período do regime militar no Brasil, mais precisamente pelo presidente Emílio Garrastazu Médice (1969/1974), quando o governo gastava milhões de cruzeiros em propagandas destinadas a melhorar a sua imagem junto à população.
Embalado pela corrente “para frente Brasil” do tricampeonato da sua seleção de futebol, o País vivenciava os anos negros da ditadura, subseqüentes ao AI-5. Eram os “anos de chumbo”, da repressão e da tortura. Os meios de comunicação e as atividades culturais eram vigiados pela polícia. Tudo o que desagradava ao governo era severamente censurado. A ditadura não admitia críticas, nem ao menos oposição pacífica. E a máquina publicitária milionária não parava. Foi quando o governo adotou o slogan: "Brasil, ame-o ou deixe-o".
Na última sexta-feira (20/05), ao abrir a minha caixa de mensagens de emails, deparei-me com mais um informativo da AMB. Dois fatores chamaram minha atenção, aliás, três: o carimbo “urgente”, a indicação logo abaixo “informativo do presidente da AMB” e seu o conteúdo, na verdade, uma carta do presidente, Desembargador Nelson Calandra, dirigida aos associados. “Conexão Direta”, este é o nome do informativo.
Faço aqui alguns questionamentos: o que levou a AMB a editar um informativo específico, com o carimbo “urgente”, e distribuí-lo tão rapidamente aos associados? O informativo é da AMB ou do presidente? A própria indicação do “Conexão Direta” que recebi diz expressamente: informativo do presidente da AMB.
Sobre o conteúdo do tal informativo, a minha preocupação é ainda maior. Em um trecho da sua carta o presidente Calandra diz o seguinte: “Pelo que se pode ver abaixo, de acordo com as nossas ações em defesa da Magistratura, qualquer palavra dita em contrário, de que a AMB não está trabalhando, deve ser interpretada como uma ação contra a própria classe”.
A afirmação contida na carta claramente nos reporta ao slogan da ditadura - “Brasil, ame-o ou deixe-o”. De uma forma intimidatória, o que o presidente Calandra quis dizer foi: quem não estiver de acordo com as nossas ações que saia.
Equívoco grave, Desembargador Calandra. Fazer com que a AMB use agora a sua máquina publicitária com argumentos semelhantes aos que eram adotados pelos militares, para calar a voz dos que criticavam o regime, é um verdadeiro desrespeito à magistratura e à sociedade brasileira. É bom não esquecer que a liberdade de opinar e de criticar foi conquistada a duras penas pelos brasileiros, além do fato de que em um ambiente onde não há espaço para crítica o elogio soa falso.
Tenho feito considerações no meu blog acerca do distanciamento que a atual gestão da AMB está impondo às Associações filiadas, com relação às tomadas de decisões e à falta de articulação política que propicie uma atuação institucional consistente. Minha intenção foi contribuir com uma reflexão para uma mudança de postura, a fim de favorecer o avanço nas conquistas que a magistratura há anos aguarda. Apontei as conseqüências que este isolamento está trazendo às lutas associativas e a necessidade de mobilizar as associações afiliadas, afinal, juntos seremos fortes
Não quero acreditar que a não aceitação de críticas pela atual Diretoria da AMB tenha provocado uma reação tão açodada, a ponto de determinar a edição de um informativo totalmente personalista - já que o mesmo diz ser do presidente e não da entidade - distribuído uma semana depois da publicação do último post, com carimbo de urgente. E o mais lamentável: com um conteúdo ufanista e ditatorial, que mais lembra a conduta de um alcaide provinciano.
Prefiro não acreditar, talvez tenha sido outra mera coincidência. Mas se a intenção foi esta, sinto dizer aos que não aceitam críticas que continuarei fazendo as minhas ponderações, sempre que for necessário, e com o objetivo de contribuir para que a magistratura seja valorizada, na qualidade de fiadora da democracia brasileira.
Aí vai outra crítica, senhor presidente: se a atual gestão da AMB não reconhecer corajosamente seus limites e contradições, não conseguirá formular um projeto associativo nacional e consistente. Continue nesta linha equivocada de ação personalista que, ao final, por falta de argumentos, só o que lhe restará mesmo será apelar para o velho slogan ditatorial: AMB, ame-a ou deixe-a.